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TEXTO NEUS MARTÍNEZ | IMAGEM ISTOCK
Os desastres relacionados ao meio ambiente causam enormes reveses econômicos e sociais, além de colocar as pessoas em risco. Até alguns anos atrás, acreditava-se que os riscos podiam ser evitados com base em dados coletados de desastres naturais do passado. Hoje, temos um ponto de partida. A evolução da tecnologia preditiva é um grande aliado para alertar, gerenciar e tomar decisões sobre incêndios, enchentes e outros eventos meteorológicos que ainda não ocorreram.

Os desastres naturais sempre fizeram parte da evolução de nosso planeta, mas nas últimas décadas temos observado um incremento destas catástrofes como resultado de condições meteorológicas cada vez mais extremas.

Os sistemas de alerta e gestão desempenham um papel importante na previsão, que melhorou exponencialmente graças ao uso da tecnologia, levando a uma atenuação das consequências desses eventos. Entre 1970 e 2019, o número de mortes em desastres naturais caiu drasticamente, de cerca de 50.000 pessoas nos anos setenta para menos de 10.000 na década de 2010.

Estas devastações são agravadas por perdas econômicas gerais. Somente nos incêndios de 2020, na Califórnia (Estados Unidos), os danos totais atingiram 11 bilhões de dólares. E, nesse mesmo ano, os custos derivados dos desastres naturais a nível mundial totalizaram 210 bilhões de dólares. Na Espanha, a gota fria de 1983, no norte do país (um dos piores eventos), custou quase 1 bilhão de dólares e tirou a vida de 42 pessoas.

Para avaliar os riscos, os especialistas dividem a natureza dos fenômenos naturais em quatro grupos: climatológicos (secas, incêndios, etc.), geofísicos (terremotos, atividade vulcânica, etc.), hidrológicos (enchentes, deslizamentos de terra, etc.) e meteorológicos (tempestades, temperaturas extremas, etc.). Todos eles têm um denominador comum: enfrentá-los como um desafio que deve ser adequadamente medido e avaliado, buscando medidas para reduzir o impacto sobre as pessoas e a economia.

Os sistemas de alerta e gestão assumem um papel importante na previsão que melhorou exponencialmente graças ao uso da tecnologia

O histórico da tecnologia aplicada aos desastres naturais avança a passos gigantes e os atuais modelos preditivos são uma arma poderosa para prevenir e gerenciar riscos

Após o terremoto e tsunami no Oceano Índico em 2004, um dos desastres mais mortíferos com mais de 220.000 falecidos, 168 países assinaram o Marco de Ação de Hyogo. O plano, que durou até 2015, tinha como objetivo reduzir a ameaça de desastres e construir resiliência para eles. O substituto para continuar trabalhando nesse objetivo é incluído no Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030, em que os países aderidos se comprometem a aplicar medidas tecnológicas, econômicas, estruturais, ambientais, etc., para prevenir os riscos associados aos desastres naturais, incrementar a preparação para a resposta e minimizar a recuperação.

Se a mudança climática (com suas consequências) é inegável, também é verdade que os dados, a pesquisa e a tecnologia estão trabalhando a nosso favor. Não muitos anos atrás, os métodos de previsão analisavam variáveis simples, como a velocidade do vento, a intensidade da chuva, os níveis de precipitação, entre outros indicadores, para antecipar o comportamento dos furacões. O resultado dessa “análise de regressão linear” era pouco preciso.

O histórico da tecnologia aplicada aos desastres naturais avança a passos gigantes e os atuais modelos preditivos são uma arma poderosa para prevenir e gerenciar riscos.

“Em um ambiente onde o custo dos eventos extremos e catástrofes está aumentando, em parte influenciado pela mudança climática, a MAPFRE está acompanhando com interesse estes avanços tecnológicos que visam gerenciar melhor o risco catastrófico. Os projetos apresentados têm perspectivas diferentes: desde o comportamento dos riscos naturais, incluindo as previsões da mudança climática, até a melhoria das informações sobre os ativos expostos. Eles incorporam tecnologia preditiva ou inteligência artificial e são projetos pioneiros em seus respectivos campos, que, embora possam ser acompanhados de incerteza em seus resultados, também podem ser grandes aliados para uma gestão mais sofisticada e precisa do risco de desastres”.

JOSÉ ÁNGEL CAÑIZARES técnico da Área de Riscos de Natureza da MAPFRE RE

Microchips, sensores, big data, IA: como é a tecnologia preditiva

O número de smartphones agora ultrapassa 3 bilhões em todo o mundo e os alertas individuais dos telefones inteligentes são, em muitos casos, um salva-vidas. Corporações gigantes, como a Google, têm um serviço de alerta público para seus usuários que cobre fenômenos como terremotos e furacões advertidos por agências governamentais em diferentes países.

O recente caso da erupção do vulcão de La Palma é um exemplo de como os modelos matemáticos e o software de simulação calculam e predizem com antecipação as localizações dos rios de lava. Com a mesma finalidade, a visão do satélite é essencial para gerenciar os riscos pós-erupção. O par de satélites Sentinel 2 (parte do sistema Copernicus EMS pilotado pela União Europeia) é responsável pelo fornecimento dos dados geoespaciais para estudar a evolução do vulcão.

A tecnologia preditiva vai do uso de microchips, com sensores e antenas emissoras de infravermelho que detectam mudanças bruscas de temperatura, um método implementado em um dos maiores parques metropolitanos do mundo localizados em Barcelona, aos modelos mais sofisticados que utilizam grandes dados para analisar fatores climáticos e criar sistemas de alerta precoce.

A inteligência artificial, protagonista dos sistemas preditivos, trata e classifica dados maciços e complexos, e encontra conexões que as pessoas teriam dificuldade de calcular.

Startups contra os riscos de desastres naturais

No ecossistema insurtech há exemplos relevantes de startups que trabalham no impacto dos riscos climáticos para desenvolver produtos seguradores que maximizem a proteção de pessoas e dos negócios.

ZESTY

Cuidar das pessoas e de seus lares. Os Estados Unidos estão frequentemente expostos a furacões, enchentes e incêndios. Na Califórnia, sete dos dez incêndios florestais mais graves ocorreram na última década. Para responder a esta tendência, a Zesty emprega a IA para analisar o impacto do risco de incêndio nas propriedades das pessoas. Sua tecnologia se baseia em imagens de alta resolução, dados de lares e edifícios, e fatores climáticos para avaliar o nível de perigo de incêndio na área, e serve para desenvolver produtos de seguro inovadores que protegem lares e empresas e, consequentemente, apoiam o bem-estar das comunidades.

DESCARTES

Uma única base de dados para uma nova geração de seguros. Uma equipe de especialistas em seguros e cientistas integram em um modelo preditivo inovador a soma da IA, a Internet das coisas (IoT), os sensores remotos e outras fontes de dados. O resultado é dar a seus clientes (através de corretoras em todo o mundo) acesso a produtos de seguro orientados pela tecnologia, que protegem clientes corporativos e governos contra desastres naturais e riscos emergentes.

CLOUD TO STREET

Acompanhamento de enchentes do espaço. Esta empresa utiliza satélites e IA para rastrear enchentes em qualquer parte do planeta sem o uso de equipamentos. A plataforma de teledetecção remota, presente em mais de 160 países, é criada para mapear áreas alagadas em tempo quase real. É um recurso valioso para monitorar pessoas e bens em risco, permitindo que as melhores decisões sejam tomadas em situações de rápida evolução. Ela também ajuda as seguradoras, comunidades e gestores de bacias hidrográficas a entender, prevenir e se preparar para riscos potenciais.

CAPE ANALYTICS

Avaliação remota de dados de propriedade. A plataforma tecnológica da Cape usa imagens geoespaciais, visão por computador e o aprendizado por máquina de um sistema de IA para avaliar automática e instantaneamente os dados de propriedade. Esta funcionalidade permite que seguradoras e investidores selecionem as propriedades ideais. Além disso, é possível monitorar para avaliar os riscos e perigos de alguns fenômenos naturais, tais como fogo, vento ou granizo.

DIVISÃO DA NATUREZA DOS FENÔMENOS NATURAIS

CLIMATOLÓGICOS

Como consequência da variabilidade do clima, com métricas que podem alcançar valores extremos.

  • Temperaturas extremas
  • Secas
  • Degelos
GEOFÍSICOS

Relacionados ao movimento de placas tectônicas e outros processos internos na superfície ou no intestino do planeta.

  • Terremotos
  • Atividade vulcânica
  • Avalanches
HIDROLÓGICOS

Relacionados com a água em diferentes lugares ou itinerários.

  • Enchentes
  • Tsunamis
  • Desabamentos
METEOROLÓGICOS
Os eventos podem ser variados e estão relacionados com o comportamento do clima.

  • Tormentas
  • Furacões
  • Nevadas

PLANET IQ

Vigilância do clima do espaço. Este provedor de serviços de vigilância e previsão meteorológica utiliza um sistema de sensores espaciais para analisar de forma muito precisa o clima, de lado a lado da Terra, com o fim de predizer eventos regionais e globais. Sua tecnologia tem um impacto na melhoria da segurança ao reduzir os riscos climáticos em setores como a agricultura, a indústria, etc.

JUPITER

Proteção de ativos em perigo pela mudança ambiental. Quantificar o impacto climático nas propriedades é a atividade central desta startup. Sua plataforma tecnológica usa a nuvem para executar uma variedade de modelos preditivos que funcionam com sensores de satélite e terrestres para calcular as condições ambientais futuras e prevenir desastres climáticos. Sua solução é ideal para estudar riscos em indústrias-chave e como recurso para seguradoras que oferecem análise de risco climático em suas carteiras de ativos.

Pesquisa, inovação e dados são inquestionáveis. A evolução da tecnologia acelera o desenvolvimento de previsões cada vez mais precisas e confiáveis. Aumenta a capacidade de fusionar modelos de previsão e combinar metodologias, tudo para estar preparado para as realidades ambientais, para mitigar riscos e para proteger as pessoas.

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