As novas tecnologias atingiram em cheio o âmbito trabalhista. Sugiram novas tarefas que exigem novas habilidades. Estamos preparados?

TEXTO RAMÓN OLIVER | FOTOS THINSTOCK

 

O mercado de trabalho encontrase no meio de uma revolução. O surgimento das novas tecnologias mudou as necessidades das empresas para uma tendência que não permite muitas previsões. Como analisar o futuro, se a maioria dos empregos que serão desempenhados pelas novas gerações ainda não existem? Dentre as vozes que estão analisando o quadro geral do mercado de trabalho nos próximos anos, um relatório recente, intitulado “A Revolução das Competências. Digitalização e por que as habilidades e os talentos importam”, elaborado pelo ManpowerGroup no âmbito internacional, perguntou a 18.000 diretores em 43 países e em seis setores da indústria como eles acham que a tecnologia afetará seu negócio nos próximos dois anos e como estão se preparando para adaptar suas equipes às mudanças que virão. Segundo o estudo, três em cada quatro líderes empresariais acham que a automatização exigirá novas habilidades no decorrer dos próximos dois anos e mais de 90% dos diretores esperam que sua organização seja afetada pela digitalização nos próximos dois anos. “Não podemos reduzir a velocidade do avanço tecnológico ou da globalização, mas podemos investir nas habilidades dos funcionários para aumentar a capacidade de resistência das nossas equipes e organizações”, argumenta no relatório Jonas Prising, presidente e CEO da multinacional de estratégia de talentos.

A revolução tecnológica sem precedentes que estamos testemunhando desempenha um papel importante no novo cenário. Todo mundo já percebeu que os novos ambientes digitais são os grandes vencedores na área de geração de empregos no mundo todo. Não há dúvidas de que, em plena revolução digital, as tecnologias emergentes estão marcando o ritmo do mercado de trabalho para as próximas décadas.

EM PLENA REVOLUÇÃO DIGITAL, AS TECNOLOGIAS EMERGENTES ESTÃO MARCANDO O RITMO DO EMPREGO

O mais procurado

Neste ambiente em constante mudança, segurança cibernética, Big Data, Internet das Coisas, inteligência artificial e machine learning são as áreas que sofrem a maior pressão na hora de encontrar profissionais qualificados. Consequentemente, as licenciaturas em matemática, estatística e programação estão cobrindo as ofertas de emprego
hoje em dia. Segundo Francisco Ruiz Antón, diretor de Políticas Públicas do Google, “as grandes empresas fazem fila
para contratar profissionais formados em engenharia de software; elas levam todos, não há uma quantidade suficiente de profissionais”.

Porém, como o mercado de trabalho não se limita ao setor das tecnologias da informação, nem todos os perfis profissionais podem proceder dessas áreas técnicas. O que acontece com os outros perfis?

Amber Wigmore, diretora executiva de Talentos e Carreiras da IE Business School, parece convencida de que os perfis de humanas têm muito a dizer nesses ambientes. Segundo ela, “uma tendência crescente no mercado de trabalho é a geração de equipes multidisciplinares compostas por profissionais provenientes de diferentes áreas do conhecimento, inclusive as ciências humanas. Com isso, as empresas buscam uma visão mais global dos desafios que enfrentam. Pode-se dizer que as ciências humanas são fundamentais para compreender o mundo atual. Os profissionais que estudaram essas disciplinas geralmente contribuem com um pensamento crítico valioso, o que acabará gerando benefícios para a empresa onde trabalham.”

De acordo com o estudo do ManpowerGroup, as pessoas que trabalham em cargos de TI e atendimento ao cliente têm boas perspectivas, pois os empregadores desses grupos estão prevendo grandes aumentos na contratação. Também se espera um crescimento rápido da demanda por analistas de dados e analistas comerciais especializados em ofertas digitalizadas. Na área de RH, prevê-se um aumento das contratações ao longo deste período de ajuste.

O histórico acadêmico não é mais suficiente

As formas de trabalhar, as motivações e o próprio conceito de trabalho estão mudando. Fórmulas como o trabalho remoto, a flexibilidade de horários, o trabalho por metas ou por projetos e uma força de trabalho na qual os profissionais autônomos têm um peso cada vez maior estão, gradativamente, transformando conceitos como contrato fixo ou bater ponto das nove às seis. “Não existe mais um emprego para a vida toda”, esclarece Francisco Ruíz Antón.

Os gigantes tecnológicos, com o Google, já entenderam bem essa nova realidade. O diretor global de Recursos Humanos da empresa, Laszlo Bock, já antecipava isso quando, em uma entrevista recente ao New York Times, afirmou que “o histórico acadêmico dos candidatos não serve de nada”. Francisco Ruiz Antón, do Google Espanha, não é tão categórico assim, embora também ache que os critérios de contratação tenham mudado radicalmente. “Percebemos que certas habilidades cognitivas, como empatia, capacidade de liderança, iniciativa, comunicação ou criatividade, muitas vezes, são mais importantes que ter experiência ou formação específica para o cargo. Isto porque as pessoas que apresentam essas características serão capazes, em pouco tempo, de desempenhar a tarefa para a qual se candidataram.” O futuro obviamente pertence aos profissionais adaptáveis, flexíveis, sociáveis, conectados ao mundo que os cerca e capazes de preparar-se de forma criativa para as mudanças que virão.

A formação desempenha um papel de destaque em todo esse processo. “A importância crescente da tecnologia e do universo digital obriga o trabalhador atual a transformar-se cada vez mais em conhecedor desses ambientes e plataformas”, propõe Amber Wigmore. Não resta nenhuma dúvida de que a formação continua sendo o melhor investimento para garantir um futuro profissional. Uma formação que seja adaptada a uma realidade socioeconômica em constante transformação. “O profissional deve continuar sua formação ao longo de toda sua carreira profissional, considerando a atualização e a aquisição de conhecimentos como aliados indispensáveis para poder realizar seus sonhos profissionais”, resume a responsável pela área de talentos da IE Business School.

Pessoas versus robôs

É necessário analisar o impacto que a nova era robótica terá no mundo do trabalho. Os especialistas preferem fugir do alarmismo. O estudo do ManpowerGroup indica, por exemplo, que a tecnologia substituirá tarefas rotineiras manuais e cognitivas, de modo que as pessoas poderão optar por tarefas não rotineiras e cargos mais gratificantes. “A criatividade, a inteligência emocional e a flexibilidade cognitiva”, o relatório acrescenta, “são as habilidades que destacarão o potencial humano e permitirão que as pessoas sejam melhores que os robôs, não que sejam substituídas por eles.”

Ruiz Antón também não acredita que haja motivos objetivos para entrar em desespero. “Toda mudança gera incertezas, mas a robotização”, diz o diretor do Google, “além dos empregos, permitirá a substituição e a agilização de tarefas. “Pode ser que uma máquina chegue a emitir um diagnóstico de um paciente com maior precisão e rapidez, mas a criatividade, a atenção ou o carinho de um médico ou de uma enfermeira nunca poderão ser substituídos.”

 

 

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