Eduardo Pérez de Lema, CEO da MAPFRE RE

Entrevista - Junho de 2016. Nº 92

"O resseguro deve combinar, de forma equilibrada, a inovação e a prudência"

O mais importante é a nossa equipe humana que, embora não seja muito ampla (menos de

350

pessoas em todo o mundo), é extraordinário, muito rica e diversa, com

25

nacionalidades e com perfis e conhecimentos muito variados

O principal neste mercado é ser rigoroso, profissional e prudente ao assumir riscos e gerenciar o negócio. Esse é um dos nossos pontos fortes

Vote neste artigo
Votos

Nasceu em Madri há 45 anos, de pai espanhol e mãe alemã. Formado em Gestão e Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade de Salamanca (CUMES), ingressou na MAPFRE RE em 1993 como estagiário, desenvolvendo aqui toda sua carreira profissional, alcançando a máxima responsabilidade desta empresa em janeiro de 2016. Nesta entrevista, compartilha conosco suas impressões ao ocupar este cargo, assim como a estratégia da empresa e sua visão de futuro.

O resseguro é um negócio bastante técnico que, às vezes, é difícil de entender. Podemos dar unas pinceladas sobre seu funcionamento para quem não o conhece a fundo?

Realmente, não se diferencia tanto da atividade de seguros. É um processo de transferência de risco mediante o pagamento de um prêmio de uma parte a outra; porém, no caso do resseguro, passa de uma seguradora a outra, que é a resseguradora. Partindo dessa base comum, existem diferentes formas de estruturá-lo, com técnicas distintas… E, é claro, há implicações adicionais. Por exemplo, é um negócio que implica um alto consumo de capital e que tem uma volatilidade maior que a média do negócio de seguros. Neste sentido, parte da nossa função é manter essa volatilidade dentro de limites aceitáveis para a MAPFRE.

Ou seja, que poderíamos dizer que o seguro não poderia existir sem o resseguro, seria uma atividade com risco alto demais.

Dificilmente a atividade de seguros poderia existir como a conhecemos atualmente. Sem dúvida, haveria muita dificuldade para assegurar determinados tipos de risco, pois nenhuma empresa poderia assumi-los individualmente, o que impediria o próprio desenvolvimento dos mercados de seguros e da sociedade em seu conjunto. A inovação e a capacidade da indústria de seguros de dar resposta aos requisitos em constante mudança de seus clientes seriam contidas.

E, em relação à MAPFRE RE, nos últimos anos, os resultados têm sido bastante positivos, apesar da crise que vem afetando muitos setores. Em geral, o que mais afeta a evolução de um mercado como o de resseguro?

São muitos os fatores que nos afetam: a situação econômica, o ambiente, as taxas de juros, as tendências regulatórias… e, em geral, a evolução das atividades de caráter global. Além de tudo isso, influi também o azar, entendido este como a ocorrência aleatória de sinistros. Em geral, somos uma indústria muito exposta aos ciclos, em que existem momentos de preços altos e outros de preços baixos (o que denominamos fases de mercado "duro e brando"), que costumam ser uma consequência de que tenham ocorrido ou não eventos catastróficos de uma determinada magnitude, e da quantidade de capital disponível para cobrir os riscos.

Quais pontos fortes da MAPFRE RE você destacaria para enfrentar, de um lado, esses ciclos desfavoráveis e também para aproveitar melhor as oportunidades nos ciclos bons?

O principal é que sejamos rigorosos, profissionais e prudentes ao assumir riscos e gerenciar o negócio, e esse é um dos nossos pontos fortes. Outra é a proximidade e a continuidade nas relações com os clientes, contar com uma rede de agências relativamente ampla e estar próximos a eles. Que o valor a oferecer aos nossos clientes vá mais além da pura cobertura de riscos, mas que esteja complementado por serviços adicionais e uma confiança mútua que permite superar situações críticas.

No nosso caso, também é muito importante a eficiência da organização. Nosso nível de gastos nos permite ser competitivos, nossa plataforma tecnológica é muito robusta, eficaz e bastante completa.

E, é claro, a solidez financeira é fundamental. No final das contas, o que se vende é capacidade financeira, já que, como resseguradores, somos uma substituição de capital para nossos clientes. Neste aspecto, o fato de pertencer à MAPFRE é uma garantia adicional.

O que realmente diferencia a MAPFRE RE de outras competidoras? O que o Grupo lhe proporciona?

O fato de pertencer ao Grupo MAPFRE já é um elemento claramente diferenciador. Isso nos proporciona a solidez da marca, a valiosa cultura de empresa, o prestígio, a reputação, a solvência… isso nos ajuda e nos diferencia muito no mercado. Além disso, somos a única resseguradora relevante que pertence a um grupo global de seguros, o que é um valor agregado, porque nos proporciona um conhecimento do negócio de seguros dentro da própria organização, o que é muito apreciado pelos clientes.

Outro aspecto é a combinação de um enfoque tradicional de negócio, no sentido de operar oferecendo suporte completo, a longo prazo, flexível e rigoroso aos clientes, com a possibilidade de oferecer soluções inovadoras. Temos feito isso nos últimos anos, por exemplo, ajudando nossos clientes na implantação do Solvência II, com soluções que ajudaram muitas empresas a se adaptarem melhor a esse momento, e também para cobrir determinados riscos emergentes aos que até agora não estavam dando resposta em relação aos seguros.

E, como elemento diferenciador, o mais importante é a nossa equipe humana, que embora não seja muito ampla (menos de 350 pessoas em todo o mundo), é extraordinária, muito rica e diversa, com 25 nacionalidades e perfis e conhecimentos bastante variados.

Em resumo, o negócio do resseguro baseia-se em dois pilares: capital e conhecimento. No nosso caso, somos fortes em ambos; o capital é proporcionado em grande parte pela MAPFRE, e o conhecimento, pela equipe extraordinária com a qual contamos. E quando mais notamos isso foi em momentos de dificuldade, em que se viu um profissionalismo e um compromisso espectacular por parte dos nossos colaboradores. Temos muito orgulho da nossa equipe.

CURIOSIDADE

De sua paixão pelo voo a vela, que teve que abandonar por falta de tempo, extraiu ensinamentos importantes para sua profissão. "Para mim, foi muito instrutivo", afirma Eduardo Pérez de Lema, "porque ensinava a avaliar os riscos assumidos e a ser prudente, mas também a manter a calma em situações de dificuldade, de emergência, que é quando deve-se ter mais concentração. Isso é muito útil na minha vida profissional".

E, por sua vez, como a MAPFRE se beneficia por ter uma resseguradora no Grupo?

De várias formas. Em primeiro lugar, por meio da subscrição de uma carteira de negócio que proporciona rentabilidade e diversificação ao conjunto do Grupo.

Também na participação que temos n a gestão profissional dos riscos que realizamos para a MAPFRE e a transferência para o mercado do resseguro. Ao fazermos parte do Grupo, podemos estar mais alinhados com a estratégia da empresa, com os requisitos propostos pela MAPFRE e seu apetite pelo risco. Estamos bastante integrados na política de gestão de riscos do Grupo e proporcionamos uma visão muito profissional de como fazê-lo.

Além disso, com a nossa atividade, dotamos as empresas da MAPFRE de recursos para que possam competir em seus mercados: capacidade de subscrição, conhecimento, cobertura dos riscos que assumem para que possam ser competitivos...

Por outro lado, somos um veículo próprio do Grupo, que lhe permite otimizar as retenções. Retemos parte do negócio rentável que, de outra forma, seria cedido fora da MAPFRE e que permite a otimização da estrutura de capital do grupo.

E, sem dúvida, ao fazer uma negociação conjunta das coberturas, temos uma capacidade que nos permite obter preços mais competitivos e condições mais favoráveis do que se fosse feito de forma isolada. 

Em termos gerais, como poderíamos explicar a estratégia da MAPFRE RE para os próximos anos?

Nosso principal objetivo é manter o rigor e a prudência na subscrição. Estes elementos devem ser, mais do que nunca, as bases do nosso negócio, porque estamos em uma situação que denominamos como mercado brando, ou seja, com uma forte concorrência no nosso setor e tarifas bastante ajustadas. Isso não significa que vamos renunciar ao crescimento; pelo contrário: nosso objetivo é continuar crescendo a longo prazo, mas mantendo essas bases sólidas.

A MAPFRE RE tem algumas posições muito consolidadas em alguns mercados, como a Europa ou a América Latina e, em menor escala, nos Estados Unidos e alguns mercados da APAC. Gostaríamos de continuar crescendo nessas regiões e também de expandir em outros mercados emergentes. Entre eles, temos interesse especial na Ásia, onde ainda contamos com uma presença relativamente limitada, apesar de conhecermos bem o mercado porque já estamos trabalhando ali há muitos anos. Demos passos novos na região, com a abertura das sucursais de Singapura e Labuan e a obtenção da licença para o escritório de representação da China, o que permitirá que estejamos preparados para quando o mercado se tornar apropriado para o crescimento. Em geral, estaremos atentos para detectar todas as oportunidades de negócio que venham a surgir. E, é claro, em relação à MAPFRE, continuaremos prestando serviços às empresas do Grupo de acordo com suas necessidades de cobertura.

Como você vê o futuro? Para onde se dirige a MAPFRE RE?

Vemos um futuro positivo, obviamente. Ali se encaixam nossos projetos para desenvolver novos mercados, novas linhas de negócio e consolidar e crescer com os clientes que temos, a fim de assegurar o desenvolvimento da empresa a longo prazo.

Além disso, como dizia, estaremos muito atentos às oportunidades que venham a surgir. As mudanças do ambiente, da legislação, das exigências para as empresas geram oportunidades para nós, e o que temos que fazer é estar suficientemente atentos para aproveitá-las.

Por outro lado, surgem novos riscos e, para isso, são necessárias novas coberturas e teremos que nos preparar para sermos ágeis e dar novas soluções ao mercado rapidamente. O terrorismo, a longevidade e o risco digital são alguns deles. Atualmente, não temos soluções claras para isso, e teremos que ir desenvolvendo-as pouco a pouco e de forma sólida.

Em suma, é preciso manter um equilíbrio, às vezes difícil, entre inovação e prudência, o que é muito importante no nosso negócio. Nosso futuro passará por ali.

E, para terminar, em 1 de janeiro deste ano você começou uma nova etapa como CEO da MAPFRE RE. É uma responsabilidade muito importante. Como você viveu esse momento?

Realmente, com sensações diferentes, pelas circunstâncias em que ocorreu: o afastamento de Pedro de Macedo por motivos de saúde e quem, lamentavelmente, veio a falecer há alguns dias. Não posso continuar sem dedicar algumas palavras ao Pedro, que foi extraordinário como pessoa e como profissional. Sob sua liderança, a empresa alcançou níveis que ninguém podia imaginar há alguns anos. Além de uma extraordinária realidade empresarial, deixou-nos um legado de uma forma de entender o trabalho, de proximidade pessoal e de permitir que as pessoas que trabalharam com ele crescessem. Isso deverá ser um guia e uma referência a marcar nossa forma de atuar daqui por diante. Todos nós tínhamos uma relação magnífica com ele, e teremos muitas saudades dele. Sem dúvida, foi uma grande perda.

Por isso, as circunstâncias da minha nomeação não foram as melhores, mas não há dúvidas de que se trata de uma grande honra e uma responsabilidade enorme. Agradeço enormemente pela confiança recebida por parte da empresa e, o que há por fazer, é trabalhar e manter esta magnífica herança que nos deixaram Pedro e todos aqueles que dirigiram antes esta empresa (com menção especial aos CEOs anteriores da MAPFRE RE, José Manuel Martínez e Andrés Jiménez), e continuar construindo sobre a sólida base que eles nos deixaram.

Sabemos que o ambiente é complicado, mas já tivemos momentos difíceis no passado e, por fim, sendo prudentes, fomos capazes de superá-los. Assumo esta responsabilidade com muito entusiasmo e uma enorme confiança na equipe extraordinária com a qual posso contar, muito eficiente e comprometida. Estou aqui, na primeira fila, mas não estou sozinho. Pelo contrário, tenho ao meu lado uma equipe muito valiosa.